Quase deu briga

deu briga

Anda tudo muito difícil nos últimos tempos. Opiniões exacerbadas. Conflitos intermináveis. Difamações. Com os dias da semana não tem sido diferente.

A quinta-feira:

– Acho que o que está desequilibrando a nossa semana é o domingo. Não é apenas tédio, é melancolia mesmo. Em qualquer lugar: seja no Rio, em Nova Iorque, até em Paris o domingo anda difícil. Acho que ele deveria pegar mais leve. Pensar um pouco mais nos outros dias da semana.

O domingo, visivelmente irritado:

– Cretinos! Fica fácil falar quando não se sabe a realidade. Sou o único dia da semana que ninguém trabalha. Que as pessoas ficam em casa assistindo televisão o dia inteiro. Dormem até tarde. Encontram seus familiares. Vão à missa. Tudo é posto em teste num domingo. Acho que você, quinta-feira, deveria cuidar mais é da sua vida.

A segunda, com a serenidade habitual:

– Calma, domingo. Não faça leitura perniciosa do que a quinta referiu, pois cometerá uma injustiça. Foi uma crítica construtiva. Convenhamos: fácil, você sabe que não é. Nenhum outro dia proporciona tanto sofrimento, por antecedência, com o que está programado para a semana, como você. Definitivamente você é diferente dos demais dias. E talvez possamos ajudá-lo a ser um pouco mais agradável.

Novamente o domingo:

– Sinceramente, se querem me ajudar deveriam começar conversando com o sábado. Muito dos meus problemas são conseqüência dele, que é um egoísta. O sábado não permite que sequer se criem expectativas sobre os demais dias da semana. Não tem limites e não respeita ninguém. Quero ver se serão francos e diretos com ele como estão sendo comigo.

A terça entra na conversa:

– Talvez o sábado devesse realmente pegar um pouco mais leve. E também deveria ser chamado a ter responsabilidade pela harmonia de nossa semana. Ele age como se o mundo fosse acabar no domingo. É meio narcisista.

O sábado, irritado:

– Você, terça, fala como se fosse fácil. Certamente é porque ninguém espera nada de uma terça-feira. Sequer notaríamos a sua ausência se o retirássemos da semana, pois você não serve para nada. Só que no meu caso é bem diferente. Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. E sinceramente: a sensação que dá é que todos pensam que o mundo vai acabar após o sábado.

A sexta:

 

– Eu entendo perfeitamente o que o sábado quer dizer. A pressão é muito forte sobre nós, representantes do final da semana. O pessoal quer mesmo é se acabar, não pensa muito nas conseqüências. Bem diferente do que acontece na segunda, na terça. E até na quarta-feira.

Novamente a segunda:

– Concordo em partes. É fácil culpar os outros pelos próprios problemas, sem ver que o início da semana também tem seus desafios. Convivemos com muito remorso, mal-estar, indisposição. E pagamos um preço caro pelo peso do domingo. A diferença está na forma de encarar todos esses problemas. Somos leves, pois sabemos que existem dois dias no ano em que não podemos fazer nada: o ontem e o amanhã.

A quarta:

– Perfeito, segunda. Não é fácil também administrar o meio da semana, com inúmeras decisões a serem tomadas. Quarta é a retomada da badalação, depois de dois dias de reflexão. Tem o futebol. O happy hour. A saidinha para dançar. Minha parada não é moleza também. Mas meu segredo realmente é me reinventar a cada novo dia.

Foi quando o mês interviu:

– É isso que eu me refiro gente. Não adianta fazer as mesmas coisas todos os dias e querer resultados diferentes.

E o ano, com a habitual lucidez arrematou:

– Quando todos os dias ficam iguais é porque deixamos de perceber as coisas boas que aparecem em nossas vidas. Por isso que os anos ensinam muitas coisas que talvez vocês, os dias, desconhecem. Dentre elas, que só é merecedor da liberdade da vida quem consegue conquistá-la de novo todos os dias.

 

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