
No caixa do supermercado, naquele bairro chique e elegante, trabalha Esperança. Ela rala todos os dias no mini-mercado do bairro. O patrão quase nunca aparece e mesmo assim todo o dinheiro que recebe entrega diretamente para a conta bancária dele.
Esperança trabalha sete dias na semana. Na carteira de trabalho está anotado seis, mas fez um acordo com o patrão para trabalhar também aos domingos.
Ela adora conversar com os clientes, pessoas muito finas que frequentam o estabelecimento. Tem diplomatas, o pessoal do agro, médicos.
Esperança passa o código de barras do arroz e anuncia ao cliente: — O Milei está salvando a Argentina. O problema é que não deixam ele trabalhar.
É fora de contexto e de certa forma surpreendente como ela entra num assunto tão específico aleatoriamente. O mesmo acontece quando passa o leite e afirma: — O Brasil vai quebrar com tantos benefícios aos trabalhadores.
Os clientes, muitas vezes, sequer compreendem bem o que se passa quando ela se manifesta desta forma, em pleno caixa do mini mercado do bairro. Quando menos esperam ela passa a carne e diz: — Acabar com a escala 6×1 é o fim da economia. Coisa de comunista.
O curioso é que Esperança ganha uma miséria, o patrão sempre atrasa o salário, pega ônibus, trabalha em pé o dia inteiro, conta moedas para fechar o mês. Nao consegue conviver com os filhos e o marido.
Mas quando passa o papel higiênico diz: — O problema do pobre é que não quer trabalhar.
Mesmo recebendo líquido menos de mil reais, fala como se fosse a patroa.
No fim do expediente, ela tira o uniforme, pega o ônibus e volta para a mesma vida de sempre. Convencida de que viver é coisa para alguns.