
Nessa quadra da vida tenho procurado trazer ao escrutínio público algumas histórias curiosas que vivenciei. Foram algumas. E uma delas é a do justíssimo Jacinto Trapani, um policial caminero paraguaio da região de Encarnación.
Especialista em abordar carros com placas brasileiras, Jacinto tinha um olhar treinado para encontrar qualquer detalhe: uma lâmpada queimada, um documento amassado, um triângulo fora do lugar. Ou até mesmo um detalhe na válvula do pneu.
E foi assim, numa manhã ensolarada, quando Zeca e Luana seguiam viagem rumo a Santisima Trinidad del Paraná. Carro cheio, criançada junto, clima de festa. A estrada estava vazia e o policial mandou encostar.
Zeca estacionou. O policial caminhou lentamente ao redor do veículo, parou diante do pneu dianteiro e aproximou-se da janela.
– Documentos, por favor.
Zeca entregou a habilitação e os documentos do veículo. Não falava, e tampouco compreendia bem o castellano.
– Tenemos un problema, señor – falou o policial.
– Qual problema? – questionou Zeca.
– Este pneu apresenta una irregularidade – apontou o policial, enquanto retirava do bolso traseiro o talonário de multas.
Zeca respirou fundo. Desceram do carro, olharam o tal do pneu, e tudo parecia perfeito. As crianças se agitaram. Mas, segundo o policial caminero, a válvula utilizada no pneu dianteiro esquerdo era proibida pela legislação do país.
– Mas como eu pago? – perguntou Zeca ao policial.
– A multa deve ser paga no banco – respondeu o policial.
– Certo, sem problemas – respondeu Luana. – E onde tem um banco próximo daqui?
– O banco mais próximo fica a duzentos e setenta e seis quilômetros daqui – respondeu o policial.
Como assim, pensou Luana. Ela questionou se não haveria alguma forma mais fácil de pagar a multa. Foi quando o policial fez uma breve pausa, como quem ensaiava uma boa notícia.
– Creio que posso ajudá-los.
Zeca olhou surpreso para o policial, e lançou um olhar de orgulho para Luana.
Jacinto aproximou-se ainda mais da janela e falou:
– Se vocês quiserem… podem pagar a multa diretamente para mim.
– Sério? — questionou Luana.
– Sim, inclusive posso dar um desconto.
– Daí resolvemos tudo agora? – perguntou Zeca.
– Sim – respondeu o policial.
– Mas isso é correto? – questionou Luana.
– A diferença entre pagar aqui para mim ou para o banco é que, se vocês forem pagar no banco, esse dinheiro vai parar nas mãos de gente corrupta – sentenciou o policial.
Sem saber o que responder diante de tamanha lógica, Zeca e Luana apenas se entreolharam, perplexos, e concordaram.