
Lá pras bandas de Três Vendas, no interior de Cachoeira do Sul, existe uma regra que não está escrita em lugar nenhum, mas vale mais que decreto: refeição sem arroz não é refeição. É lanche, petisco, sei lá… qualquer coisa.
Pode ser costela, galeto, carne de panela o arroz tem que estar ali. Branco, soltinho, fumegando. Se não tiver, sempre aparece um tio pra perguntar:
— Mas… e o arroz?
Outro responde, indignado:
— Deve tá vindo.
A hipótese mais razoável é que ele atrasou. Outra alternativa não seria viável para uma pessoa nascida e criada no Piquiri ou no Capané.
Agora, o mundo anda mudando. Onde antes se plantava arroz a perder de vista, hoje brota soja. Tem lavoura de soja até onde antigamente o sapo precisava pedir licença pro arrozal. Lá em São Nicolau dizem que é o mercado.
Mas para o cachoeirense mercado é uma coisa. Arroz é outra. Já não chega o rebaixamento da cidade para Capital Estadual do Arroz, quando antes era nacional, agora só o que faltava era a soja tomar conta da lavoura.
Foi então que a turma da capital resolveu fazer um jantar mais sofisticado para aquelas pessoas de Cachoeira. Mesa bonita, taça de cristal, guardanapo de pano. Maria chega todo elegante trazendo o prato principal: risoto.
Feito com arroz arbóreo, importado da Itália. Cremoso, perfumado, cheio de queijo e vinho. O azeite de oliva então… impecável.
O silêncio tomou conta da mesa e um ficou olhando pro outro. O mais velho coçou o bigode. O outro mexeu devagarinho com o garfo, como quem procura alguma coisa perdida.
Até que um senhor do Piquiri, depois de muito examinar o prato, levantou os olhos e perguntou com a maior sinceridade do mundo:
— Tá… mas cadê o arroz?