
Hoje pela manhã fui ligar o carregador do celular na tomada aqui no hotel, em Assunção, no Paraguai, onde estou passeando com meu filho, quando a luz do quarto caiu. Avisei a recepção e rapidamente subiu um técnico para avaliar o que havia acontecido. Foi quando conheci Álamo, um eletricista que foi militar da marinha do Paraguai por 17 anos, tornando-se inclusive oficial. Ocorreu uma conversa fantástica.
Álamo me contou que há dois anos atrás passou por uma terrível experiência. Estava de folga, no carnaval e resolveu sair com outros dois oficiais para uma festa. Ingeriram bebida alcoólica e na volta sofreu um acidente que arremessou seu carro para o rio que banha Assunção, o Rio Paraguai. Foi um desespero, segundo ele me contou. Conseguiu, com muito custo, quebrar os vidros do carro e salvar a sua vida e a de seus amigos. Ficaram meses hospitalizados.
Enquanto ele mexia na instalação elétrica do quarto fomos conversando e eu senti que ele queria muito me contar algo. Várias vezes durante nossa conversa ele referia sobre algo que havia mudado a vida dele, sobre um tal ocorrido, mas sempre mudava a conversa. Até que ele me contou tudo.
Disse-me que foi expulso das forças armadas, diante do ocorrido, e que a imprensa do seu país deu uma repercussão quase internacional ao caso, pois ele havia consumido muito álcool e era oficial das Forças Armadas. O que não era para menos: o acidente foi terrível, depois localizei a notícia na internet, cuja fotografia acompanha este texto, foi há dois anos atrás.
Me disse que após o acidente, sua recuperação e também uma depressão profunda, pela primeira vez na vida estava conseguindo levar sua filha na escola, chegar em casa às seis da tarde, fazer as tarefas de casa, passear nos finais de semana, rotina que, para ele, era impossível quando era militar. Disse-me que como tenente ganhava um excelente soldo, o que permitiu garantir boas condições para sua família. Mas que não desfrutava dela, pois sempre estava em missões e serviços militares. Disse-me mais: que se iludiu com o dinheiro e com o poder que a patente militar lhe deu, o que o tornou uma pessoa arrogante e prepotente. Ele era terrível com as outras pessoas, segundo me contou.
Após alguns minutos de conversa, eu já com os olhos cheios dagua, pois a expressividade dele era de muita luz, ele me disse, também visivelmente emocionado, que a vida é algo muito singular. Que muitas vezes vivemos focados tanto em algum sonho ou objetivo, que acreditamos que o mundo se resume aquilo apenas. Que esquecemos que existe algo além da nossa bolha. Foi enfático nisso: a vida é muito mais do que nossa rotina e nossas crenças.
Me contou que hoje ele consegue apreciar as árvores, os passarinhos e olhar para as pessoas de uma forma mais humana, ganhando muito menos dinheiro, como eletricista, do que quando era oficial da armada
Fiquei bastante confuso na hora, pois não sabia como agir: se confortava, aconselhava ou encerrava aquilo tudo. Predominou uma vontade gigante de dizer para ele que ele é um sortudo por tudo que aconteceu. Que o acidente foi um presente do universo, para que ele iniciasse uma nova vida. Não sei de onde veio aquelas palavras, eu estava muito tocado com tudo, assim como fiquei emocionado ao escrever estar linhas, lembrando da sutileza do olhar daquele homem.
Quando Alamo terminou o serviço, a energia elétrica do quarto havia sido restabelecida. Mas, curiosamente, não foi apenas a luz do quarto que se acendeu naquela manhã. Fiquei o dia todo pensando naquele encontro. Ainda penso nele. Existem acidentes que destroem vidas e existem acidentes que, depois de destruir aquilo que éramos, nos obrigam a descobrir quem realmente somos.
Talvez por isso os olhos de Álamo carregassem, ao mesmo tempo, arrependimento e serenidade. Arrependimento porque a vida não é feita apenas de dois caminhos como tentam nos fazer crer. Serenidade porque o caminho é repleto de desvios que jamais escolheríamos, mas que acabam nos conduzindo exatamente para onde precisávamos chegar.