
O ano é 2035 e estão sentados, à mesa do bar, o jornaleiro e o jornalista. Já tomaram umas quantas. O jornaleiro tem uma espécie de ressentimento histórico e cutucou:
– Bem-vindo ao clube.
O jornaleiro havia sido atropelado pela tecnologia muito antes de perceber que estava morto. Foi substituído por um PDF.
O jornalista, por sua vez, teve um pouco mais de sorte. A coisa demorou um pouco mais. Primeiro veio o blog. Depois, o portal, o YouTube, o Instagram, o podcast, os influenciadores. Por fim, a inteligência artificial.
O jornaleiro, portanto, estava há quase duas décadas desempregado. O jornalista acabara de chegar. E era justamente por isso que, naquela noite, numa mesa de bar, havia entre os dois uma velha conta a acertar.
– Não, eu não. Você, sim – retrucou o jornalista.
– Como não, meu amigo? Você também não perdeu o seu emprego?
– Não. Comigo foi diferente.
– Como assim? – indagou o jornaleiro, com o copo na mão.
– Eu fui substituído.
– Ah… sim, entendi. – disse o jornaleiro.