
O dia que conheci a casa de Enrique Amorin, em Salto, no Uruguai, não foi apenas como voltar no tempo. Foi uma experiência Schleeniana pura. Aliás, Amorin surgiu na minha vida através dos contos de Aldyr Garcia Schlee.
Entre os móveis, os livros, as fotografias e os objetos que permaneceram exatamente onde foram deixados, tive a sensação estranha de que Amorin estava presente. E lembrei do antigo Cine Rio Branco. Seria isso mesmo? Preciso perguntar para o Martin.
Tudo é incrível na residência. As paredes, as persianas, as esculturas, a calefação, os tijolos, as escadas, as portas e os portões. Tudo merece uma atenção qualificada.
Logo na entrada, na parede, em meio a muita arte, li o seguinte dizer: deseo de soledad o es mucha virtud o es mucha maldad. Mas só tempos depois fui saber que a residencia tem o projeto de Le Corbusier. Já pensou?
Amorin nasceu em Salto, em 1900. Escritor, fotógrafo, cineasta, viajante, homem de muitas amizades e de uma vida que parece grande demais para caber numa biografia. Filho de família rica, de origem portuguesa e basca (quanto a esta última, para variar: migração basca no Uruguai). Conviveu com Borges, Horacio Quiroga, Portinari, Walt Disney e tantos outros personagens importantes da cultura do século XX. Seguidamente, nas leituras castellanas, seu nome surge, sempre nas entrelinhas.
Mas foi Federico García Lorca quem, para mim, tornou tudo aquilo ainda mais extraordinário. Aliás, há vários sinais disso em recorridos pela cidade de Salto. Você precisa descobrir por você mesmo. Amorin teria levado García Lorca para Salto?
A história conta que Lorca esteve no Rio da Prata no início dos anos 1930. Era um jovem poeta. Amorin provavelmente o conheceu em Buenos Aires. Depois vieram os encontros. Vieram as fotografias. E veio uma amizade que, até hoje, não conseguimos explicar completamente. Só sabemos que Salto guarda o primeiro monumento dedicado a García Lorca no mundo. E que a obra é de Amorin.
García Lorca morreria poucos anos depois, assassinado na Espanha. Mas Las Nubes segue viva. Logo ali, em meio aos pinheiros, na Avenida Enrique Amorin numero 1700, em Salto, no Uruguai.